Greve de 44 dias <br>trava ofensiva

António Santos

Quarenta mil trabalhadores estado-unidenses da empresa de telecomunicações Verizon deram por terminada, no passado dia 27 de Maio, uma greve começada há 44 dias, derrubando a intenção dos patrões de facilitar despedimentos e retirar direitos aos trabalhadores. Segundo o sindicato Communications Workers of America (CWA), a luta arrancou ao patronato «enormes conquistas» como um aumento salarial de 11 por cento ao longo dos próximos quatro anos, a criação de 1300 novos postos de trabalho nos EUA, ou a contratação efectiva dos primeiros 70 trabalhadores precários da rede sem fios, sector onde, até agora, os contratos de trabalho estáveis eram uma miragem.

Apesar de, no último triénio, a Verizon ter declarado lucros de 39 mil milhões de dólares, a multinacional começou 2016 com uma extorsão: ou os trabalhadores aceitavam a total precarização das suas vidas ou os capitalistas transferiam os postos de trabalho para países como as Filipinas, onde a mão-de-obra é remunerada por menos de dois dólares por hora. Em causa estava a substituição de toda a rede de comunicações por cabo por uma rede sem fios operada por trabalhadores sem direitos, mais cara e menos rápida para o consumidor, e menos exigente em mão-de-obra, facilitando assim os despedimentos. O patronato exigia ainda a liberdade de transferir funcionários para locais de trabalho até 130 quilómetros de distância, a definição dos domingos como «dias de semana», a aplicação de cortes nas pensões, a redução da contribuição patronal para as reformas e para os custos de saúde dos trabalhadores e o fim dos bónus em função dos lucros.

Uma greve

de proporções históricas

Da Virgínia a Massachusetts, a costa leste dos EUA ficou imersa numa das mais longas greves de que há memória recente. Perante a inflexibilidade dos patrões, os trabalhadores responderam com uma firmeza e persistência que abalaram a agenda política nacional e obrigaram à intervenção da Casa Branca, através do secretário do Trabalho, Thomas Perez. A irresponsável teimosia dos donos da Verizon, que procurou substituir os grevistas por «amarelos» (ou crostas como se lhes chamam nos EUA), deu origem a incontáveis acidentes, falhas de serviço e chegou a ameaçar o funcionamento da própria bolsa de Wall St. «Não podemos suportar a greve durante mais tempo», avisava um comunicado da Verizon na semana passada.

«Depois de mais de seis semanas nos piquetes de greve, os trabalhadores da Verizon conquistaram um excelente contrato novo que protege os trabalhos com direitos», fez saber o CWA através do vice-presidente do Distrito Um, Dennis Trainor, «Unidos, estamos a inverter a maré de cortes contra a classe trabalhadora, a construir um movimento laboral mais forte e a fortalecer o poder dos trabalhadores americanos. Pela primeira vez na história, trabalhadores da Verizon wireless vão ter um contrato colectivo de trabalho», sublinhou.

Incógnitas e limitações

Embora os trabalhadores tenham regressado ao trabalho esta quarta-feira, ainda não são conhecidos todos os detalhes do contrato pré-acordado por sindicatos e patrões. Entre os pontos do acordo que agora será discutido e votado pelos trabalhadores, constam contrapartidas, ainda nebulosas, que permitirão embaratecer os custos da Verizon com os cuidados de saúde dos funcionários ou flexibilizar a gestão dos serviços de call-center sem, contudo, recorrer a sub-contratação.

Trata-se, ainda assim, de um «acordo positivo», garante o sindicato International Electrical Workers: «emergimos de uma guerra ideológica com uma empresa que achava que esta seria a oportunidade ideal para destruir o sindicato. (…) Quando isso não aconteceu, perceberam que tinham subestimado seriamente a nossa solidariedade».

 



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